SALA C
Esta sala é sobre casas. Diz a canção que uma casa não é um lar se não houver lá ninguém para te abraçar e a quem possas dar as boas-noites. Durante 28 anos eu vivi na Amadora com os meus pais, Júlio e Cândida, e a minha irmã Raquel. Vivíamos numa casa com dois andares, tínhamos um quintal com uma ameixoeira e uma arrecadação na escada. Foi na Amadora que cresci, estudei e dormi. Lembro-me do meu quarto, cada vez mais cheio de mim, empanturrado em artes e letras: livros, discos, cassetes, CDs, cassetes de vídeo, DVDs, recortes e objectos de várias épocas. Lembro-me do escritório do meu pai, do atelier da minha mãe, das corridas no quintal com a minha irmã e vizinhos. E também me lembro de uma inundação no andar de baixo e nos assaltarem a casa. Umas ruas acima do nosso lar, Roque Gameiro tinha a sua casa de família. Um solar onde viveu desde 1898, durante largos anos. O local foi concebido para o próprio como residência artística da família – sim, os descendentes também haveriam de vingar nas artes. Como vista, os Roque Gameiro tinham uma cidade deserta (ou melhor, uma quinta) e a estação dos caminhos-de-ferro da Porcalhota. Eram amigos de outras figuras de culto como Delfim Guimarães, os aviadores que na altura tentavam voos mais altos, e todos aqueles homens que aos poucos criaram a minha cidade, apenas reconhecida como tal em 11 Setembro de 1979. Durante muito tempo passei à frente da sua moradia. Interrogava-me sempre que casinha era aquela que ia ficando cada vez mais pequena e desaparecida no meio de prédios altos e vegetação selvagem e descuidada. Além das Amadora, Roque Gameiro viveu em Minde e na Nazaré.
Em cima: Maria Alzira Roque Gameiro e eu.
Em baixo: HONRA TEUS AVÓS - Lema encontrado nas casas onde Roque Gameiro habitou. Referência ao passado. Familiar e artístico. Sou dos que me lembro de ter uma bisavó com gosto por livros e pintura a óleo. Mas também não esqueço três figuras do meu arquivo pessoal de referências de adolescência. Tem sido uma honra tê-los a todos na minha vida.
Oscar Wilde (1854-1900) foi escritor e dramaturgo. Inteligente crítico dos costumes sociais vitorianos, foi alvo de um longo processo judicial por práticas homossexuais - um dos casos, mais hipócritas de que há memória, numa altura em que proliferavam os bordéis masculinos, para além de se verificar um surto nunca igualado de sífilis. Foi condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados e depois da prisão exilou-se para Paris, onde morreu vítima de um ataque de meningite
Jack Smith (1932 – 1989) foi autor de pequenos espectáculos apresentados em casa aos seus amigos, é tido por muitos como um dos grandes nomes da performance art nos anos 60. Foi também realizador de filmes subversivos como Flaming Creatures (1962), onde mexe em assuntos como o género, o kitsch e o camp.
Montgomery Clift (1920-1966) foi o actor norte-americano de Bruscamente no Verão Passado, Até à Eternidade e Um Lugar ao Sol. Um acidente de carro desfigurou-lhe um dos lados da cara. Descobri-o numa altura onde reinavam Tom Cruises e Don Johsons, e gostava da estranha calma com que o seu olhar destoava de tanta brutalidade.
Fotografia de Roque Gameiro e família na casa da Amadora // Conjunto de cassetes com playlists, banda-sonora do filme Os Caça-Fantasmas e uma cassete de limpeza // Cubo mágico // Robot-rádio // Cassetes de vídeo com alguns filmes gravados ou comprados durante a minha adolescência: Os Marginais, Bonnie and Clyde, West Side Story, Um Eléctrico Chamado Desejo e Cabaret. // Pulseira de prata com a data do meu décimo aniversário no verso: 19-02-1986
Livro de autógrafos de André Murraças. Quando eu era novo tinha a mania de andar a pedir autógrafos a músicos e estrelas pelos festivais organizados pelo meu pai na Amadora. Aqui visíveis estão Rui Veloso e Eusébio. // Fotografia no quintal da nossa casa na Amadora. Eu e a minha irmã num Carnaval, comigo em Freddy Krueger, o meu herói adolescente de terror. // Reprodução de postal com ilustração de Roque Gameiro para a Festa da Árvore de 1913, naquela cidade. s/ data // Colecção de 14 bilhetes-postais, na ocasião do VI aniversário do município da Amadora e do 50º aniversário da morte de Roque Gameiro. Data: 1985 // A minha mãe e eu na nossa casa na Amadora, fotografados pelo meu pai // A minha irmã, Raquel, e eu no nosso quintal na casa da Amadora // O meu primeiro dia no externato Anjo da Guarda, na Amadora Catálogo da primeira exposição realizada na Amadora com a obra de Roque Gameiro. O meu pai, que trabalhava na cultura da Câmara Municipal da Amadora, a minha mãe fez o design do catálogo aqui exposto. Data: 1982 //A minha turma na Escola Preparatória da Mina, na Amadora. Chamava-se “Mina” porque naquela região foi descoberta uma mina de água, mais tarde inaugurada pelo então Presidente da República Manuel de Arriaga em 1932. O local pertencia a uma das famílias da Amadora – os chamados "Lopes da Mina" e, hoje, a água continua a ter grande utilidade, servindo para abastecer o lago do Parque Central. A mina, entretanto encerrada, permanece no mesmo local, num parque ajardinado que tem o nome de Parque da Mina. // A minha turma na Escola Secundária da Amadora, numa visita de estudo

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